Os eventos que vivemos nos últimos anos, o rápido desenvolvimento da inteligência artificial e a crescente importância da virtualidade desafiam o contacto físico e podem ser capazes de provocar um afastamento do que consideramos como mundo ‘real’, tendo certamente o poder de nos transformar num tecido social cada vez mais individualista e desinteressado, que, crescentemente, se verifica apartado da socialização e do fazer em comunidade.
Nesta edição da CONTEXTILE, propõe-se uma reflexão sobre o Toque, considerando-o como o primeiro de todos os sentidos capaz de nos reposicionar face ao mundo, numa perspetiva menos centrada no olhar.
Cláudia Melo e Janis Jefferies
Casulo é a escultura têxtil cuja essência abrange histórias, mãos e diálogos entrelaçados no cultivo de algodão orgânico no Madeiral, São Vicente, em Cabo Verde, iniciado pelo coletivo Neve Insular com a comunidade. Derivada da tradição do tear africano, a escultura incorpora fio de cobre juntamente com o algodão fiado à mão na trama pela comunidade de mulheres de Tambacounda, Senegal, ganhando maleabilidade e assumindo a forma de um espaço uterino suspenso com um toque de proteção mágica. Tecida por Cândida Rocha, Cabo Verde, a sua volumetria assemelha-se às formas da própria natureza e ao aconchego da montanha do Madeiral. O nome da peça remete para a origem das relações no cultivo de algodão, que crescem a partir da fibra do algodão em Cabo Verde, país onde o algodão foi um dos pilares dos sistemas escravocratas durante a colonização portuguesa.