0,0003% — Algodão e Resistência
0,0003% é a fração da superfície terrestre de São Vicente cultivada com algodão pela Neve Insular, em parceria com a Associação Agropecuária do Calhau e Madeiral. Um número quase impercetível — e é precisamente aí que reside a sua força. Este "nada-tudo", como o coletivo o descreve, é o ponto de partida de uma exposição que parte de uma pequena plantação numa ilha árida do Atlântico para interrogar séculos de história, economia e cultura.
A exposição Neve Insular, 0,0003% — Algodão e Resistência materializou anos de trabalho coletivo no Vale do Madeiral, em São Vicente: mais de 30 kg de algodão colhidos comunitariamente desde 2020, temporadas de agroecologia praticada nos 800 m² do Centro Agroecológico do Madeiral, oficinas de educação artística com crianças e agricultores, residências artísticas, investigação histórica e um processo lento de construção de confiança com a comunidade. Tudo isto convergiu num espaço expositivo onde as peças autorais e o programa discursivo se interpelam mutuamente.
Acredito que o trabalho interinstitucional e interdisciplinar é essencial, porque cada equipa contribui dentro do seu métier.
Da plantação colonial ao gesto contemporâneo
O algodão tem uma história longa e carregada em Cabo Verde. Desde o século XV, o seu cultivo nas ilhas de Santiago e do Fogo alimentou regimes de plantação escravocrata e sustentou um dos mais importantes circuitos comerciais do Atlântico colonial — o pano d'terra, tecido nas ilhas, era moeda de troca preferida no resgate de escravos ao longo da costa da Guiné, do Senegal à Serra Leoa. Com a Revolução Industrial e a produção em série de fios e tecidos, esse ciclo entrou em colapso: o algodão e a panaria foram usados, consumidos e abandonados.
É sobre essa memória que a Neve Insular trabalha — não para a musealizar, mas para a reativar criticamente. A exposição parte do regresso literal à semente: sementes de algodoeiros espontâneos colhidas nos vales de São Vicente, de uma espécie adaptada à aridez e ao solo rochoso, resistente à falta de água como as próprias ilhas. Plantar esse algodão, colhê-lo coletivamente, cardá-lo, fiá-lo à mão e tecê-lo com mestre Marcelino dos Santos — o último artesão vivo na região norte de Cabo Verde com o conhecimento completo do ciclo têxtil — é ao mesmo tempo um ato agrícola, pedagógico e político.
As peças
As obras apresentadas nascem deste processo e das relações que ele gerou. A escultura Casulo é uma estrutura que evoca a forma e o aconchego da montanha do Madeiral — uma proteção, uma crisálida, uma promessa de transformação. Uma peça de algodão fiado à mão, de múltiplas funcionalidades, condensa o ciclo completo desde a fibra bruta até ao objeto. Os mapeamentos históricos que acompanham as peças traçam as ligações entre o padrão do Pano d'Obra, a figura estilizada do algodão tecida nos panos, e a história colonial e pós-colonial do arquipélago.
Na Residência Artística Rbera, o coletivo avançou para o domínio do food design: em colaboração com a Unidade de Transformação Agro-alimentar da Ribeira do Calhau, foram produzidos queijos em moldes cerâmicos cuja forma remete para a figura estilizada do algodão no pano d'terra — um gesto que liga a terra, a matéria e o símbolo numa única peça comestível.